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Giancarlo Giacomelli

Publicado em 19 de fevereiro de 2015 | Por Giancarlo Giacomelli

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O que aprenderemos com os gregos

Uma frase que desconheço o autor e de tão gasta atribuo à sabedoria popular, diz que; ‘o inteligente aprende com os seus erros. O sábio aprende com o erro dos outros. E o tolo mesmo errando nunca aprende.’. Teremos a chance de observar a validade dessa frase não só para indivíduos, como para um país inteiro.

A Grécia nos permitirá assistir em tempo real a derrocada de mais um discurso populista de esquerda, e decidirmos se seremos sábios ou tolos. Explico.

A Grécia enfrenta uma situação difícil há anos. Os governos de esquerda e social democrata abraçaram a ideia do estado de bem estar social, acreditando que o governo tem o poder mágico de gerar riqueza e cuidar como um pai babão de todos os cidadãos de um país. Isso é tão verdadeiro quanto unicórnios. Com essa crença em mente, o governo grego por muito tempo gastou mais do que arrecadava, em 2009 a dívida do governo batia em 300 bilhões de euros, os motivos são vários, afinal não se contrai uma dívida deste tamanho só bancando prostitutas para alguns burocratas.

Uma das causas é especialmente interessante, principalmente porque é algo que já começamos a vivenciar no Brasil. É a seguinte, a Grécia tem um grande déficit da previdência social, isso significa que o valor que ela precisa pagar para os aposentados é menor do que o valor que ela vem arrecadando dos contribuintes que seguem trabalhando.

Na prática a previdência social é um gigantesco esquema de pirâmide de ponzi, assim como a ‘TelexFREE’, ‘Dinastia’ e outros tantos. A diferença aqui, é que é um esquema ‘regulamentado’ pelo governo, porém a lógica é rigorosamente a mesma:

“Pondo esse esquema em prática, uma pessoa ganha uma certa quantia de um grupo de pessoas, e esse grupo de pessoas ganharia a mesma quantia de um segundo grupo de pessoas, que depois ganhariam a mesma quantia de um terceiro grupo de pessoas, e assim sucessivamente.

O problema óbvio desse esquema de pirâmide é que ele cresce em progressão geométrica — ou seja, se são necessárias, em tese, seis pessoas para se pagar a quantia acertada para uma pessoa, serão necessárias trinta e seis pessoas para se pagar a quantia acertada para o grupo de seis, e assim por diante.

Em um esquema de pirâmide em que seis pessoas suportam uma, o décimo-terceiro grupo já seria maior que toda a população mundial (esse grupo seria composto por pouco mais de 13 bilhões de pessoas, mais que o dobro da população mundial).” Santoro [1]

Então, para que este tipo de esquema se sustente, é preciso que eu tenha um número cada vez maior de entrantes. E é aí que mora o problema. Em esquemas como a Dinastia ou Telex, há uma limitação de novos entrantes, pois, até mesmo no Brasil, idiotas dispostos a colocar dinheiro em algo difícil de entender são escassos. Na previdência pública isso não existia, pois mesmo que o cara não fosse um babaca e preferisse ele mesmo cuidar de sua aposentadoria, ele não poderia, pois o governo obrigatoriamente extorquia esta cota de qualquer empregado. Como a expectativa de vida não era tão alta e a taxa de natalidade beirava 3, 4 filhos por casal o esquema se mantinha de maneira razoavelmente tranquila.

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Figura 1: Pirâmide etária Grécia 2015

Porém, a economia tem essa mania de ser coerente e não tolerar gambiarras por muito tempo, então, a expectativa de vida na Grécia (e toda Europa) começa a aumentar, o que faz com que os aposentados fiquem por mais anos recebendo benefícios, e na outra ponta, as famílias começam a ter menos filhos, logo, uma diminuição de novos entrantes no mercado de trabalho. Aí já era. A pirâmide começa a inverter e se prepara para ruir. Mês após mês o governo se vê com mais salários para pagar que o que consegue expropriar dos trabalhadores na ativa. No Brasil, em 2013, essa conta ficou em R$ 50 Bi, ou seja, mesmo com aposentadorias miseráveis, o governo gastou R$ 50 bilhões a mais para pagá-las do que o valor arrecado com os contribuintes. Na Grécia, o cenário é ainda pior.

Quando você gasta mais do que ganha, você precisa de dinheiro emprestado. A Grécia pegou 110 bilhões de euros em 2010 e mais 130 bilhões em 2012, se comprometendo a adotar medidas de austeridade, ou seja, deixar de gastar mais do que ganha. A União Europeia foi ridiculamente tolerante nestes empréstimos, cobrando da Grécia uma taxa de juros anual menor do que a cobrada da Alemanha, seria o mesmo que emprestarmos dinheiro a um Eike Batista falido cobrando menos juros do que ao Bill Gates.

E mesmo assim, os gregos não se conseguiram se conformar com a realidade, não conseguiram admitir que o mundo seja um lugar real, que 2 + 2 sejam sempre 4, que no passado gastaram as custas das gerações futuras e agora havia chegado a conta. Ultrajados com as medidas de austeridade, elegeram um partido de extrema esquerda que tinha como principais bandeiras o calote da dívida e inebriantes benefícios sociais como energia gratuita para 300 mil gregos, moradias populares e a extinção de impostos. Como se faz isso no mundo real, ainda ninguém sabe. E é aqui que começa nossa oportunidade de aprendizado.

O primeiro ministro Alexis Tsipras tem algumas poucas saídas e elas podem nos servir de exemplo para não enfiarmos o Brasil ainda mais fundo em um buraco.

A primeira dela é ser hipócrita. E curiosamente essa seria a melhor saída para os gregos. Tsipras poderia jogar no lixo todo o seu discurso de campanha e plataforma de governo, o que não seria nenhuma novidade (o 2º mandato da Dilma começou rigorosamente assim) com essa alternativa ele seguiria conscienciosamente pagando suas dívidas com a União Europeia, o que garantiria a possibilidade de pegar mais um empréstimo a taxas baixíssimas nos próximos 3, 4 anos. Manter e avançar nas ações de austeridade, reduzindo os gastos públicos e a carga tributária para motivar a iniciativa privada a gerar algo de valor além do turismo e das belas gregas, e manter as regras da União europeia quanto a expansão monetária, ou seja, não provocar inflação imprimindo dinheiro ou gerando crédito através de reservas fracionárias.

Considerando o contexto em que foi eleito e o narcisismo típico de jovens políticos de esquerda, creio, para a infelicidade dos gregos, que ele não optará por esta saída. Infelizmente ele tentará aplicar suas promessas de campanha, buscará um calote ou outra alternativa parecida como extensão dos prazos de pagamento, o que, curiosamente soa como uma saída correta para este pessoal que tem uma moral invertida, e que esquece que não foram os credores que forçaram a Grécia a pegar os empréstimos e sim a Grécia que precisou desesperadamente de alguém que confiasse na sua capacidade de arcar com compromissos.

Então, ao dar o calote ele fecha as portas para novos empréstimos, e como segue arrecadando menos do que gasta, precisará encontrar outras fontes de recursos. A primeira será espoliar ainda mais os empresários que ainda seguem dispostos a produzir alguma riqueza por lá, aumentando a carga tributária e sendo mais rigoroso nas fiscalizações, o resultado será a diminuição da atividade produtiva e aumento do desemprego.

Sem conseguir obter todo o dinheiro que precisa via tributação, possivelmente optará por abandonar a zona do euro e voltar a utilizar o dracma como moeda, ao fazer isso pode imprimir dinheiro para pagar as despesas do estado. Porém, o resultado dessa prática é sempre inflação. No fim, em alguns anos, a Grécia afundada em inflação e desemprego será novamente um exemplo do destino de todas as experiências de esquerda.

É lamentável o fato de que pessoas precisarão ficar desempregadas, que o cenário econômico negativo aumente os índices de violência, que jovens fiquem fora do mercado de trabalho diminuindo suas perspectivas de crescimento, e que os aposentados, os maiores prejudicados pelos regimes inflacionários, passem necessidades com maiores custos com saúde e alimentação, apenas por terem sido ludibriadas por uma bela retórica de crápulas de esquerda.

Uma pena para os gregos, uma oportunidade para os povos que desejam aprender quais políticas econômicas merecem ser levadas a sério, e quais políticas e discursos devem ser abominados.


[1] http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=993


Sobre o autor

Capitalista até os ossos. Politicamente um libertário. Contra todas as formas de intervenção do governo na vida das pessoas. Acredita no comércio como o grande símbolo da cooperação social e do que há de melhor na humanidade. Fã de Ludwig von Mises, Ayn Rand e Nelson Rodrigues. Em suma, um reaça, 'coxinha', neo-liberal, que aceita orgulhoso toda ofensa que venha da esquerda e acha a ideia de patriotismo uma piada que faz adultos parecerem crianças brincando de Forte Apache.



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