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Giancarlo Giacomelli

Publicado em 26 de março de 2015 | Por Giancarlo Giacomelli

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A liberdade não pode ser relativizada

Há alguns anos tenho estudado mais profundamente sobre a liberdade. Inicialmente meu interesse era basicamente sobre economia, mas quanto mais entendia de economia, mais indissociáveis os dois temas ficavam. Ficava cada vez mais claro que é impossível qualquer sociedade prosperar sem liberdade (ao menos, é claro, se esta sociedade é beneficiada com o que é extorquido de seus pares, como é o caso de Brasília, por exemplo). E assim se tornava óbvio que a busca por aquilo que eu entendia como um mundo melhor, era também a busca por mais liberdade.

De repente passei a me concentrar na concepção de liberdade. Buscar as ‘entranhas’ da palavra, que de tão usada já tinha se tornado clichê, perceber que ela tinha virado aquele tipo de coisa que de tanto vermos e ouvirmos deixamos de ver sua beleza e força. Deixamos de respeitar e sem percebermos ela se torna uma sombra do que era, se perde em meio a uma vida onde permitimos que burocratas e políticos desprezíveis ditem quando e como podemos exercer nossa liberdade.

Isso cresceu. Essa percepção de que sob vários aspectos da minha vida eu não era livre me perturbou. E ao mesmo tempo em que me incomodou profundamente, me inflou de vida. Me fez questionar qual é o tipo de vida que merece ser vivida? Que tipo de homem eu seria se não fosse livre para fazer escolhas banais sobre a minha vida, meus filhos ou minha profissão? Como permitir que gente da laia do Sarney legislasse sobre a minha vida? Ditando os tipos de negócios que eu poderia fazer, que tipo de gasolina eu usaria no meu carro, me obrigando a votar (mesmo eu desprezando os ritos políticos de um país apodrecido pela corrupção), tendo me obrigado a me alistar em um exército que também desprezo. Proibindo-me de ter uma arma e a possibilidade de me defender, me obrigando a confiar em uma polícia falida, me levando a ter uma vida em que o medo e a insegurança fossem muito mais constantes do que eu gostaria.

Que tipo de homem eu seria se aceitasse a obrigação de colocar meu filho em uma escola que é também forçada a seguir um currículo determinado por um Ministério da Educação composto majoritariamente por canalhas, não tendo nem o direito de instruir meus filhos em minha casa, conforme os meus valores, se assim escolhesse.

Que tipo de vida eu levaria aceitando quieto que os agricultores, comerciantes, empreendedores e outras pessoas que voluntariamente me servissem, fossem obrigadas a deixar mais da metade do que ganhavam nessa livre transação para bancar um governo abjeto, centrais sindicais abarrotadas de vagabundos, organizações repletas de criminosos como o MST e um bando de funcionários públicos certos de que todas as outras pessoas têm obrigação de bancar seus salários, independentemente deles realizarem seu trabalho ou não.

Que tipo de exemplo eu daria ao me comportar como um cordeiro, sendo dócil com todo tipo de burocrata que resolvesse me importunar, desde fiscais da prefeitura e guardinhas de trânsito a auditores da receita, que, sem direito algum a nada que é meu, nem sequer ao meu tempo, se sentissem com alguma autoridade sobre a minha vida. Como viver sendo conivente com um sistema corrompido, que trata os melhores homens como escravos e que explora a ignorância e a fome dos pobres de maneira indecente, para se legitimar no poder. Como seria ter isso em frente aos olhos e mesmo assim seguir com a mesma rotina?

Para mim não deu. Não conseguiria me ver como homem se não lutasse contra isso. E isso me deu uma razão para viver. Sou ateu, não que me orgulhe disso, mas não vivo essa vida acreditando que haverá algo melhor depois dela, então foi fundamental encontrar um bom muito para viver esta. Assim, entender como uma razão para viver, a missão de fazer com que esta vida fosse mais livre, mais próspera, com mais segurança, mais civilidade, melhor qualidade de vida, mais liberdade para comerciar e deixar um legado de luta pela liberdade para as próximas gerações, foi inspirador.

Nisso, descobri que o pouco de liberdade que ainda resta, corre sério risco. Que os pais que obedientemente relegaram suas crianças às escolas dirigidas pelo estado, haviam perdido boa parte destes filhos. Que mais de duas gerações de brasileiros perderam a noção do que é um direito, e que o jovem brasileiro médio acha razoável usar o poder do estado para obrigar outros a pagarem pelo seu transporte, seu almoço e suas bolsas de estudo. Justo este jovem que deveria ser o grande defensor da liberdade, deveria lutar pela oportunidade de se realizar como pessoa sendo o melhor que pudesse ser, criando novos produtos, descobrindo novas fronteiras para a ciência, melhorando a vida dos seus semelhantes, e lucrando com isso, era justamente ele que acreditava ter o direito de ‘pedir’ e ‘pedir’, de usurpar qualquer lasquinha de qualquer um que trabalhasse e gerasse renda. Ver jovens pedindo mais e mais estado, mais benefícios concedidos à custa de empresários, comerciantes, diaristas e pedreiros, me embrulhou o estômago.

Tornei-me menos tolerante com hippies de boutique que atrasam o retorno de trabalhadores para casa enquanto protestam por mais ciclovias, com gritos de guerra que expõem o autoritarismo travestido de boas intenções (‘Mais amor, menos motor’, se você não tem horário a cumprir é fácil), como se ciclovias fossem a grande causa da humanidade. Enquanto isso, se borram de medo e não dão um ‘pio’ sobre os fundamentalistas islâmicos que incendeiam qualquer um que não os siga. Passei a desprezá-los.

Tornei-me mais gentil, grato e admirador dos comerciantes, barbeiros, padeiros e de todos aqueles que tiram seu sustento do seu próprio trabalho, só recebendo aquilo que outro semelhante considere justo pagar, não recebendo nenhum tostão extorquido pela força do estado e seus capangas da Receita.

Me tornei um libertário. Acredito no laissez-faire.  Que qualquer indivíduo deve ser livre para incorrer em qualquer atividade econômica, sem licença, permissão, proibição ou interferência do estado.  O governo não deve intervir na economia de nenhuma forma.¹

Nessa busca encontrei gigantes do passado, como Ludwig von Mises, Ayn Rand, Frédéric Bastiat e Murray Rothbard. E alguns bravos intelectuais contemporâneos, que na contramão do senso comum, lutam corajosamente pela defesa da liberdade, como Thomas Sowell, Walter Block, o sensacional George Reisman, Gary North, o inspirador Lew Rockwell, entre outros. Percebi que a liberdade não pode ser relativizada. Que é absurdo aceitar que o mesmo jornal que clama por ‘liberdade de expressão’, não se posicione contra a regulação da internet pelo governo.

Entendi que civilidade é cuidar de sua vida. Que é uma canalhice pedir que o governo faça leis que obriguem os outros a viver do jeito que você acha correto. Criei um desprezo por tudo que é estatal. Putarias como a ANCINE (que não obstante injetar dinheiro numa classe artística medíocre, hipócrita e incompetente, agora quer obrigar as operadoras de TV por assinatura e web, como a Netflix, a terem um percentual mínimo de conteúdo nacional, o que significa que você não é livre nem para escolher o que assistir na TV de sua casa), ANVISA, ANATEL, os planos diretores e todo o resto, me enojam. Não passam de cabides de empregos para pessoas que nasceram para ser vizinhos enxeridos e conseguiram arranjar um emprego que lhes pague por isso.

Mises escreveu que “serão necessários muitos anos de autoeducação até que o súdito possa transformar-se em cidadão. Um homem livre deve ser capaz de suportar que seu concidadão aja e viva de modo diferente de sua própria concepção de vida. Precisa livrar-se do hábito de chamar a polícia, quando algo não lhe agrada.”²  É a este trabalho que pretendo contribuir.

Hoje, combater com ideias todas estas formas de totalitarismo e coletivismo se tornou um grande prazer, de tão agradável poderia dizer que é um hobby, mas é mais que isso. Zelar por um mundo mais livre e próspero virou uma obrigação moral, um compromisso com esta e as próximas gerações.

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¹ – http://www.mises.org.br/ArticlePrint.aspx?id=1864

² – Liberalismo segundo a tradição clássica – Ludwig von Mises


Sobre o autor

Capitalista até os ossos. Politicamente um libertário. Contra todas as formas de intervenção do governo na vida das pessoas. Acredita no comércio como o grande símbolo da cooperação social e do que há de melhor na humanidade. Fã de Ludwig von Mises, Ayn Rand e Nelson Rodrigues. Em suma, um reaça, 'coxinha', neo-liberal, que aceita orgulhoso toda ofensa que venha da esquerda e acha a ideia de patriotismo uma piada que faz adultos parecerem crianças brincando de Forte Apache.



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