Ele pedia que eu entregasse as compras no escritório dele. Eu ajuda..." /> A primavera das mulheres - Portal Meu Bairro


Sirlanda Selau

Publicado em 20 de novembro de 2015 | Por Sirlanda Selau da Silva

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A primavera das mulheres

Ele pedia que eu entregasse as compras no escritório dele. Eu ajudava no comércio da minha família. Deveria ter uns 14 anos de idade. Qualquer chiclete que ele comprava, eu deveria ir lá entregar. Às vezes, fazia duas ou três entregas por dia. A cada entrega, um assédio. No inicio ele só me chamava de pequena. Depois eram agradecimentos lascivos. Adjetivos que eu não compreendia. Até que começaram os contatos físicos, especialmente: mãos maliciosas. Eu nunca mais quis fazer as entregas. Passei a desconfiar de muita adjetivação masculina e a enfrentar diversos de tantos assédios que ainda passaria na vida. Esta é a minha história. Acho que este foi o primeiro assédio que sofri. Talvez não tenha sido o primeiro, mas foi o que primeiro consegui discernir na minha cabeça de pré-adolescente. Certamente, não seria o último.

Nestes últimos dias, milhares de mulheres compartilharam seus relatos sobre seu primeiro assédio. Isto, em razão, ou melhor, como reação ao assédio pedófilo a uma menor participante de programa televisivo. Creio que muitas destas histórias particulares, fizeram com que varias outras mulheres se identificassem, se consternassem e contassem também a sua história. Com isso, as mulheres inundaram espaços virtuais e físicos de comunicação, desvelando o manto protetor que recai sobre o assédio sexual. Denunciando, que todas nós, em maior ou menor medida, sobrevivemos, ou não, a esta reiterada e cruel realidade.

Este movimento espontâneo e massivo é um dos tantos que as mulheres protagonizam. Nos últimos meses, iniciativas similares se reproduzem em alta escala, e com forte impulsão dos meios virtuais. Poderia citar, só em Porto Alegre, a iniciativa chamada “Vamos Juntas”, que estabelece laços de solidariedade e segurança entre as mulheres que circulam, e estão, permanentemente, expostas a violência urbana e de gênero, em especial.

Vemos ainda, no Brasil inteiro, uma potente resistência das mulheres à onda de recrudescimento das legislações protetivas, em especial aquelas que garantem mecanismos de proteção às vitimas da violência sexual, as quais se encontram em marcha acelerada para aprovação no Congresso nacional. Neste sentido, ocorreu em diversas capitais, atos em que milhares de mulheres se reuniram para denunciar tais retrocessos legislativos, orquestrados especialmente pelo então presidente da Câmara dos Deputados, Sr. Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

A resistência das mulheres, frente ao obscurantismo machista, está nas ruas, está nas redes, está para iluminar os tempos sombrios que avançam sobre os nossos direitos e sobre os nossos corpos. Esta é o que alguns já chamam de A primavera das mulheres. Certamente, esta será uma das mais belas, fortes e longas primaveras que já vivemos.


Sobre o autor

é advogada, formada pela Fundação do Ministério Público do Rio Grande do Sul; especialista em Gestão Estratégica de Políticas Públicas pela UNICAMP; Mestranda do PPG em Ciências Sociais da Unisinos. Feminista. Natural de Porto Alegre, cidade onde vive e que trocaria por poucos lugares no mundo.



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