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Publicado em 12 de setembro de 2017 | por Letícia Demoly de Mellos

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Por que o ódio tomou o espaço do diálogo nas redes sociais?

As redes sociais não deveriam ser um espaço para o ódio, mas são. Quantas coisas boas podem ser conquistadas ao alcance de um clique, de 140 caracteres, de uma foto, de uma mensagem… Quantos sorrisos, quantos momentos de ajuda ou reflexão, mas ultimamente o que ganha mais destaque é o ódio. Muitas vezes ele começa devagar e vai tomando proporções maiores a medida em que os grupos que sentem a necessidade de fazer seu grito chegar mais longe, como se estivessem em uma batalha viking ou uma guerra.

Ao contrário de uma batalha, contudo, esses “guerreiros” não estão em um campo de luta colocando a sua integridade física a prova. Eles se escondem atrás de computadores e vão organizando frases de efeito, xingamentos, fatos não comprovados e tudo o que puderem colocar em seu arsenal, mesmo que não seja verdade, com o único objetivo de ser o vencedor dessa guerra onde na verdade só há perdedores. Ninguém ganha quando o objetivo é o ódio pelo ódio. Destruir alguém ou algo sem argumentos, com informações vazias ou mentiras, não é uma vitória.

A mais recente guerra da Internet é sobre a exposição Queer do Santander Cultural. O tema, que merecia uma ampla discussão da sociedade, conversas regadas a preocupações e ideias, se tornou uma disputa entre “quem é a favor ou contra a zoofilia e a pedofilia.”.

Eu fico imaginando de que lado nessa disputa está quem realmente pratica atos de zoofilia e pedofilia. Porque toda essa discussão que a exposição trouxe, querendo os que a fecharam ou não, deve trazer muita incomodação. Muitos navegadores de Internet devem ter tido o seu histórico apagado nas últimas horas, muitas “piadinhas” ficaram mais sem graça para aqueles que adoravam brincar com “as novinhas” ou as “ovelhas”. Eu vi muitos amigos que se consideravam afeminados quando crianças virem a público dizerem que eram crianças “viadas”. Imagino que tenha sido libertador. Eu mesma já fui chamada de “machorra” quando era criança e me senti representada.

Também fico pensando o que está passando pela cabeça dos artistas da exposição. Se a ideia era trazer para discussão a homofobia, a pedofilia e a zoofilia como um problema que merece mais atenção e cuidado, bom… Querendo ou não eles conseguiram isso.

A exposição Queer merecia sim ter sido mais discutida. A responsabilização de quem leva as crianças a essas exposições, principalmente as escolas, também. Esses temas devem ser trabalhados junto a comunidade escolar, a Justiça, os museólogos, os artistas? Com certeza! O ódio que está se espalhando pela Internet era necessário para isso? Não. Se os temas são muito avançados para uma criança, quem deve regular a participação delas nessas exposições? Os pais não deveriam ser consultados? As escolas, antes de levar os alunos à exposição, sabiam do que ela se tratava? Essas questões todas não serão respondidas porque o ódio tomou o lugar do diálogo.

Arte é arte. Ela está aí para mexer com a gente, para trazer discussão, para nos tirar da zona de conforto. Seja ela em uma exposição, em uma música do Mamonas Assassinas, no Bolero de Ravel ou em um funk. Ou será que o próximo passo é discutir o que devemos ou não ouvir em nossos momentos de lazer?


Sobre @ colunista

Eu sou gremista, sou jornalista, sou filha e neta. Estou apaixonada por muitas coisas nesse momento, inclusive minha profissão. Estou namorando, apaixonada. Falo francês, passei um ano na França.Gosto muito de Adele e Paolo Nutini. Tem mil coisas sobre mim. A maioria eu não sei explicar. Eu sou isso tudo, mas também outras coisas. Essas, nesse momento da minha vida, são realmente importante para mim. Feito em 2011, mas ainda bem atual em algumas coisas.




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